Pernas pesadas e inchadas ao fim do dia vêm muitas vezes das veias, que deixam o sangue parado em baixo. Num rastreio de 91 545 doentes, 19,7 % tinham estas queixas sem nenhuma veia visível. O inchaço também pode nascer no coração, nos rins, no fígado, na tiroide ou num medicamento. Em casa, o que tem melhor evidência para os sintomas é a meia de compressão com pelo menos 15 mmHg no tornozelo. Para o vinagre e a babosa não há estudos que sustentem o que se promete.
Esta página ajuda a ler um sintoma. Separa o que costuma vir das veias do que vem de outros órgãos, põe lado a lado o que foi testado e o que é apenas hábito, e diz quando o inchaço deixa de ser caso para casa.
Não faz diagnóstico. A tabela de causas dá pistas, e nenhuma pista substitui uma consulta, uma análise ou um eco-Doppler.
Também não dizemos que mude ou suspenda um medicamento. Se a amlodipina ou outro fármaco pode estar a inchar as pernas, a decisão é de quem o receitou. Trocar um remédio da tensão às cegas pode ser mais arriscado do que o tornozelo inchado.
Porque é que as pernas ficam pesadas ao fim do dia?
Uma das causas mais frequentes é a doença venosa crónica. As veias das pernas têm válvulas pequenas. Elas só deixam o sangue subir. Quando essas válvulas ou a parede da veia ficam danificadas, o sangue circula pior e a pressão dentro da veia aumenta, segundo o Manual MSD.
É isto que o povo chama má circulação nas pernas.
Porque é que a parede da veia enfraquece? Ninguém sabe ao certo. O Manual MSD aponta uma fraqueza da parede das veias superficiais, possivelmente herdada, que com os anos faz a veia perder elasticidade, esticar e alargar.
O quadro típico tem quatro peças. O inchaço piora ao fim do dia. A perna pesa, lateja e cansa. À volta do tornozelo interno a pele pode escurecer e descamar. Nos casos graves aparecem úlceras, por vezes sem ferida que as explique (Manual MSD).
Quem sente isto costuma descrevê-lo com pormenor. Dói do joelho ao tornozelo, a perna parece de chumbo e, ao passar a mão, nota-se uma veia saliente.
Pernas pesadas sem varizes visíveis também contam?
Contam. Os médicos usam a escala CEAP para arrumar a doença venosa em degraus. C0 quer dizer sem sinais visíveis, C1 são derrames e veias reticulares, C2 são varizes e C3 é o inchaço, de acordo com o Centro de Informação do Medicamento da Ordem dos Farmacêuticos. A letra «s» junta-se quando há sintomas.
O maior levantamento feito até hoje, o Vein Consult Program, avaliou 91 545 doentes de 6 232 médicos de clínica geral e encontrou algum grau de doença venosa em 83,6 % deles, com 19,7 % na classe C0s — queixas mas sem nada à vista (Rabe et al., 2012).
O peso pode, portanto, chegar anos antes da primeira variz.
Quem tem mais probabilidade de ter pernas cansadas?
O Manual MSD aponta como fatores de risco da insuficiência venosa crónica a idade, a obesidade, passar muitas horas sentado ou em pé, a gravidez, coágulos anteriores e lesões na perna. A Ordem dos Farmacêuticos acrescenta o sexo feminino e a história familiar de varizes, e dá como menos consensuais o calor ambiente, a vida sedentária e o tabaco.
A idade pesa muito. Segundo dados norte-americanos citados pela ESVS 2022, até 30 % dos casos de doença venosa crónica surgem depois dos 65 anos. Nessa idade as alterações de pele aparecem em 12 % dos doentes, contra 6 % nos mais novos.
E as pernas inquietas à noite têm a ver com as veias?
Talvez, mas ninguém o provou. Uma revisão sistemática de 2025 juntou 10 estudos. Sete encontraram ligação entre síndrome das pernas inquietas e doença venosa, três não encontraram nenhuma, e os autores recusam falar em causa (Alyahya et al., 2025).
Pernas inchadas são sempre sinal de problema nas veias?
Não. Quando as duas pernas incham, as causas mais frequentes são a insuficiência venosa, a insuficiência cardíaca, a síndrome nefrótica, a cirrose, o hipotiroidismo e alguns medicamentos, segundo a edição profissional do Manual MSD sobre edema. Quando incha só uma perna, a causa mais frequente é a trombose venosa profunda (TVP).
A tabela junta as pistas que se podem observar em casa. Não serve para diagnosticar, serve para decidir com que pressa procurar o médico.
Fontes da tabela: Manual MSD, edema (edição profissional) e linfedema (edição para o público).
Que medicamentos podem inchar os tornozelos?
O Manual MSD dá quatro classes. São os bloqueadores dos canais de cálcio, como a amlodipina, usada na tensão alta, os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), os estrogénios e os corticosteroides. Se o inchaço começou depois de um destes, leve a lista do que toma ao médico de família. Parar por conta própria um remédio da tensão é que não.
Linfedema e edema das veias: qual a diferença?
O linfedema é linfa acumulada nos tecidos, porque o sistema linfático não a drena. O tipo secundário é o mais comum e surge depois de cirurgia ou radioterapia que retiram ou lesam gânglios. A diferença sente-se com um dedo. Ao carregar à volta do tornozelo, a cova é bem mais funda no linfedema do que no edema venoso, descreve o Manual MSD. No edema das veias também falta o inchaço generalizado do tecido à volta, típico do linfedema.
O calor, as horas de pé e a gravidez pioram as pernas?
Pioram, cada um à sua maneira. A Ordem dos Farmacêuticos regista sintomas mais marcados com tempo quente. O Manual MSD nota que a comichão das varizes aparece sobretudo depois do calor.
Em Portugal, 9 % dos trabalhadores fazem 49 horas ou mais por semana, segundo dados do Eurostat de 2025 citados pela Euronews. Quantas dessas horas se passam de pé, nenhuma estatística nacional o diz. Caixas, cabeleireiras, enfermeiros e quem trabalha na restauração conhecem a resposta pelo fim do turno.
Na gravidez o inchaço é quase regra. A diretriz europeia de cirurgia vascular (ESVS 2022) indica que pode afetar até 80 % das grávidas, sobretudo no terceiro trimestre. Derrames e varizes costumam regredir, pelo menos em parte, nos primeiros meses depois do parto. O lado médico da gravidez está no guia sobre varizes e doença venosa.
O que fazer em casa: o que tem evidência e o que não tem?
Para aliviar peso e dor, a medida com melhor evidência é a meia de compressão; elevar as pernas e caminhar têm lógica e risco baixo, mas foram pouco estudados. Perder peso e fugir ao calor nunca foram testados em ensaios para estas queixas. O mesmo vale para os duches frios.
Elevar as pernas ajuda mesmo?
Ajuda a aliviar, e é a medida mais barata que existe. Pode fazer-se deitado, ou sentado com as pernas apoiadas num banco. Para o inchaço, o Manual MSD sugere pôr as pernas acima do nível do coração durante pelo menos 30 minutos, três vezes por dia. A Ordem dos Farmacêuticos lembra que a elevação é recomendada há muito tempo e que a prática clínica a considera útil, embora faltem ensaios formais. A ESVS acrescenta um limite: alivia os sintomas, mas não substitui a avaliação de uma veia com refluxo.
Caminhar e fazer exercício resolve?
Caminhar faz sentido, só que a prova direta ainda é fraca. A revisão Cochrane de 2023 juntou 5 ensaios aleatorizados com 146 participantes que comparavam exercício estruturado com nenhum exercício. A conclusão dos autores foi que não há evidência suficiente para decidir se o exercício beneficia quem tem doença venosa crónica (Cochrane CD010637).
Isto não prova que o exercício não sirva. Prova que os estudos são pequenos e soltos.
A lógica mantém-se. Ao contrair, a barriga da perna aperta as veias e empurra o sangue para cima, e o Manual MSD inclui o exercício regular no autocuidado.
E as meias de compressão?
São o que tem melhor apoio para os sintomas. A diretriz da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular (ESVS 2022, Recomendação 9) recomenda meias com pelo menos 15 mmHg no tornozelo para reduzir os sintomas venosos, como o peso e a dor, em quem tem doença venosa crónica com queixas. A Ordem dos Farmacêuticos acrescenta que, em quem passa horas de pé no trabalho, a compressão reduz o peso, a fadiga e a tendência para inchar.
Há duas ressalvas honestas. Uma revisão Cochrane de 13 ensaios com mais de 1 000 pessoas não encontrou prova de que a meia, sozinha, trate as varizes visíveis. E as meias de descanso, com a mesma densidade da ponta ao joelho, aliviam a sensação de peso mas não são dispositivo médico, explica a clínica cirurgia-vascular.pt.
A ESVS contraindica a compressão na doença arterial grave das pernas e na insuficiência cardíaca avançada (Tabela 7). Nesses casos, a decisão é do médico. Classes, medidas e preços estão em como escolher e medir meias de compressão.
Perder peso, fugir ao calor e duches frios servem para alguma coisa?
Servem como bom senso, não como tratamento provado. A própria ESVS 2022 escreve, na secção sobre lacunas de evidência, que o efeito das mudanças de estilo de vida e da perda de peso na doença venosa crónica não foi estudado adequadamente. Duches frios e beber mais água não têm estudo localizado para pernas pesadas.
As recomendações da DGS para as ondas de calor de 2026 são gerais. Pedem pelo menos 1,5 litros de água por dia, 2 a 3 horas em ambiente fresco e nada de sol direto entre as 11h e as 17h (ECO, 01.07.2026). Não falam de pernas nem de circulação.
O vinagre de maçã trata varizes ou pernas pesadas?
Não há prova de que trate. Quem procura como tirar varizes em tratamento caseiro encontra sobretudo o vinagre, e por trás da fama está um único ensaio aleatorizado (Atik, Atik e Karatepe, 2016).
Os investigadores sortearam 120 doentes para dois grupos, mas o artigo analisa 80, com 40 em cada. O grupo do vinagre punha as pernas a 45° e aplicava um pano embebido em vinagre de maçã sobre a variz, 30 minutos duas vezes por dia, durante um mês. O grupo de controlo ficou apenas com o tratamento conservador habitual. No fim, dor, cãibras, inchaço, comichão, pigmentação e cansaço melhoraram no grupo do vinagre (p<0,05).
Parece prova. Não é.
A objeção de fundo vem antes de qualquer estudo. A variz nasce de válvulas que falham dentro da veia e de uma parede que perdeu elasticidade. Nada que se ponha na pele chega lá.
Porque é que o remédio caseiro parece resultar?
Porque alguma coisa alivia de facto. Um líquido frio ou um gel na pele dá frescura imediata, e essa sensação passa facilmente por tratamento. Depois há o ritual. O vinagre costuma aplicar-se ao fim do dia, deitado e de pernas para cima, exatamente como no ensaio de 2016.
Quem jura que resultou não está a inventar o alívio; está a dar o mérito ao frasco em vez de à almofada.
Babosa, alho e argila têm estudos?
Não têm. Nem um ensaio.
Numa pesquisa dedicada a 24 de setembro de 2026, a redação não encontrou nenhum ensaio aleatorizado nem revisão sistemática sobre aloé vera (babosa), alho ou argila aplicados na pele para varizes ou pernas pesadas. Uma ronda de pesquisa anterior também não tinha encontrado.
Falta de estudos não é prova de que façam mal. É a informação que interessa a quem vai gastar tempo e dinheiro. E o argumento do vinagre vale igual para os três, porque a válvula estragada fica por baixo da pele, da gordura e da parede da veia.
Existem cremes que eliminam varizes?
Não existem. A revisão Cochrane sobre flebotónicos (CD003229) não encontrou nenhum estudo de creme ou gel que cumprisse os critérios de inclusão. Os dados que existem são de comprimidos, que em 13 estudos com 1 245 pessoas provavelmente reduzem ligeiramente o inchaço, com mais queixas de estômago do que o placebo (Cochrane). O manual europeu de produtos-fronteira acrescenta que um produto apresentado como alívio de pernas cansadas ou inchadas deixa de poder ser vendido como cosmético. O que cada folheto aprovado pelo Infarmed permite dizer está em cremes e venotónicos à venda nas farmácias.
Quando é que o peso nas pernas já são varizes?
Quando a veia se vê dilatada e torta, o degrau já é o C2. A partir daí interessa perceber quais sintomas justificam avaliação vascular. A orientação britânica NICE CG168 manda referenciar varizes com sintomas, alterações de pele, veias duras e dolorosas (tromboflebite) e úlcera, aberta ou cicatrizada. Varizes sem queixas não precisam de referenciação. Para a NICE, um serviço vascular é uma equipa capaz de fazer a avaliação clínica completa com ecografia duplex e de oferecer toda a gama de tratamentos.
Em Portugal o caminho começa no médico de família, no centro de saúde, e os prazos, as técnicas e os preços estão em tratamento de varizes no SNS e no privado. Se ainda não sabe por onde começar, a página inicial da Pernas Leves organiza o site por sintoma.
Sinais de alarme
Nestes casos não se espera para ver se passa.
- Falta de ar súbita, dor no peito, tosse com sangue, tontura ou desmaio, sobretudo com uma perna inchada. Pode ser um coágulo no pulmão. Ligue 112 já.
- Uma perna inchada de repente, dorida, quente ou vermelha. Ligue para o SNS 24 (808 24 24 24) ou fale com o médico de família no mesmo dia.
- Uma variz que sangra. Deite-se, levante a perna e faça pressão firme por cima. Isto acontece muitas vezes no duche quente ou durante o sono, sobretudo em pessoas mais velhas que vivem sozinhas. Mesmo que pare, a diretriz europeia (ESVS 2022, Recomendação 89) pede avaliação urgente: ligue para o SNS 24 (808 24 24 24). Se não parar, 112.
- Cordão duro, vermelho e doloroso por cima de uma veia. É uma tromboflebite superficial, que pode avançar para as veias profundas. Fale com o médico de família ou com o SNS 24 no mesmo dia: a ESVS considera obrigatório o eco-Doppler.
- Ferida perto do tornozelo que não fecha, ou pele que escurece e descama. Pode ser uma úlcera venosa a começar. Marque médico de família sem adiar.